De Coxas Bambas
Postado em 19 de Junho de 2008
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Olá, amigos!
A você que acompanhou a Expedição Coxas Bambas, registramos nosso agradecimento pelo apoio durante a viagem. Os Coxas agora partem para uma nova expedição: o desafio de reunir e organizar o conteúdo gerado na viagem. Nossa intenção é realizar uma exposição fotográfica, organizar um livro e editar o documentário com as imagens feitas pelos superlativos. Assim que esses projetos estiverem prontos você será nosso convidado mais uma vez a conhecê-los em primeira mão. Aproveitamos para informar que novas fotos foram publicadas em nosso álbum no site. Se você não for lá dar uma olhada, ninguém irá por você.
Até breve!
Coxas Bambas
Segunda feira, 04 de fevereiro - O destino de hoje é o Brasil. Ficam para trás Cochabamba, La Paz, Tihuanaco, Puno, Cuzco, Pisac, Ollantaitambo, Machu Picchu, Copacabana, Uyuni, San Pedro de Atacama, Santiago, Los Andes, Valparaiso e Viña del Mar.
Voltamos com as mochilas cheias de imagens e bons momentos, tão intensos quanto as mensagens postadas pelos ilustres leitores durante a expedição. Esperamos que as fotos e relatos tenham despertado bons presságios em nossos visitantes, da mesma forma que os comentários diários, sempre lidos com grande interesse, nos incentivaram a seguir viagem.
De fato, se fomos foi por receio de ninguém ir por nós. De resto, sugerimos: de alguma forma, vá! Entre sonhar e partir, ficamos com o segundo. Qualquer sonho sem um passo é só um delírio. Mas se você der o primeiro, já não precisa sonhar. O ir basta. Partir é também descobrir que tudo o que sempre disseram sobre o mundo estava errado. Há um olhar novo sobre as coisas quando é você que está lá. Então dispare. Não pare.
Quinta-feira, 31 de janeiro - Na capital chilena, os Coxas acordam animados para o último desafio da viagem: cruzar a Cordilheira dos Andes passando pelo portal do Aconcágua. Originalmente, a expedição partiria de Mendoza (Argentina) em direção ao portal e a Puente del Inca, na fronteira com o Chile. Mas por conta da mudança de rota na saída do deserto de Atacama, em virtude da falta de passagens para Salta (Argentina), a logística para se chegar ao pé do Aconcágua se tornou mais arriscada e cara. Decidimos alugar uma camionete para irmos até a fronteira e deixá-la no lado chileno. Dali, sairíamos em direção ao portal e Puente del Inca, voltando em seguida pela mesma estrada.
Um atraso de mais de uma hora na entrega do carro foi o primeiro problema enfrentado pelos Coxas. Viriam outros. Quando finalmente chegamos à fronteira, nos deparamos com muitas nuvens carregadas no céu, vento frio e intenso tráfego de caminhões. Este último se resolveria pedalando mais devagar e o mais distante da pista principal. Mas os outros pareciam intransponíveis. Para piorar, o tráfego pesado e obras na pista atrasaram ainda mais a viagem e chegamos tarde à base fronteiriça. Resultado: tomamos a difícil e sensata decisão de abortar a expedição. Estávamos a pouco mais de 30 quilômetros do ponto de referência para iniciar a travessia, mas a combinação de nuvens cinzentas, vento frio, queda acelerada de temperatura e, sobretudo, o adiantado da hora, levaram os Coxas a excluir esse último trecho do roteiro. Da Cordilheira, levaremos para o Brasil apenas a imagem um pouco distante dos picos nevados vistos da fronteira.
Como na altitude não havia clima, fomos para o litoral. Valparaíso e Viña del Mar foram escolhidas para serem o retiro espiritual dos Coxas antes do embarque para o Brasil. Mas mesmo o pedal a alguns metros acima do nível, nas praias mais atraentes do Chile, não foi suficiente para apagar de nossas mentes a visão da Cordilheira ficando para trás sem ter sido devidamente explorada. Fica pra próxima.
Domingo, 27 de janeiro, 9h12 - Com bicicletas blindadas, enlameadas e salgadas, saímos em busca dos atrativos do deserto nos arredores de San Pedro de Atacama. De cara, notamos a facilidade de pedalar na “baixitude” dos 2.400 metros da região. Os pulmões bocejavam. A primeira parada é no Ojos del Salar, complexo de lagoas de água verde esmeralda e altamente salinizada, em meio á secura atacamenha. O teor de sal é tão grande que é impossível afundar.
Aproveitamos a superfície branca ao redor da lagoa para produzir fotos brincando com a perspectiva que o terreno proporciona. Assim, o Coxa Cabral matou a vontade de atropelar o comparsa Adriano com o pneu da bicicleta (veja foto); este por sua vez, mostrou seu gigantismo diante do insignificante Cabral ao seus pés (veja foto). Terminada a brincadeira, retornamos ä base para conhecer a “grande” San Pedro, o que é possível ser feito em uma tarde. Foi um tremendo choque monetário sair da Bolívia e cair na capital do deserto. A cidade é absurdamente cara. Trocamos os restaurantes pelos mercadinhos, e tudo bem…
Para o dia seguinte (28), programamos dois pedais. O primeiro nos levou a Pukara de Quitor, uma fortaleza dos índios atacamenhos que foi um dos mais importantes focos de resistência na guerra contra os espanhóis, em plena Cordilheira de Sal. O lugar reserva imagens surpreendentes como faces de guerreiros esculpidas no alto das montanhas, cavernas e uma estrada em caracol que leva a um dos mais altos mirantes da região. O caminho tradicionalmente é feito a pé, mas os Coxas inovaram ao subir de bicicleta pelo estreito e extenso caracol. Lá de cima, vimos o Vale da Morte, por onde passamos no retorno à cidade.
De volta à base, breve pausa para comer, esticar as coxas e reabastecer as caramanholas. Para nosso último pôr-do-sol em San Pedro, escolhemos o Vale da Lua. E lá estão os Coxas na estrada rumo a um dos mais atraentes pontos turísticos do deserto. Visitar o vale nos fez pensar sobre quais serao os motivos que ainda levam diretores de cinema a usar computação gráfica para reproduzir superfícies lunares ou de outros planetas. O lugar fica totalmente fora da Terra. O sol se foi, as estrelas (trilhares delas no céu limpíssimo do deserto) chegaram e os Coxas encerraram o giro no deserto com um pedal noturno, na volta do vale lunar, num total de 86 quilômetros de giro desértico. Na base, pela primeira vez as bicicletas receberam uma geral e foram para as malas.
No dia seguinte (29), por não haver passagens para Salta (Argentina), mudamos o roteiro e embarcamos para Calama. De lá, partimos direto para Santiago. Após 21 horas de viagem pela Panamericana, com parada em Antofogasta para admirar o Pacífico, os Coxas chegam á capital chilena. Escolhem o Centro para se hospedar, de onde prepararão a estratégia para vencer o último superlativo previsto na Expedição: cruzar de bicicleta a Cordilheira dos Andes passando pelo portal do Aconcágua. Até lá, curtiremos a pé os calçadões da capital chilena.
Advertência: os textos dos Coxas são escritos na primeira e/ou terceira pessoa do plural. O Pelé também passa por isso…
Sábado, 26 de janeiro, 6h23 - Os Coxas se livram da noite mais fria da viagem. Dos beliches militares é possível ver os flamingos saltitando nas águas da Laguna Blanca. Estamos a 10 quilômetros da fronteira e temos que aproveitar o tempo bom para cruzá-la e chegar a San Pedro de Atacama. Preparamos a tralha e partimos em direção a saída do parque nacional que abriga as lagunas coloridas. Os funcionários do parque ficam surpresos ao saber de nossa intenção de pedalar tão cedo até a fronteira, aos pés do vulcão Licancabur (5.916 metros de altitude).
Os maiores obstáculos não seriam a distância, vento ou frio. O que tornava o pedal ainda mais desafiador nesse lugar é o ar rarefeito somado ao fato de serem praticamente 10 quilômetros de pura subida. Depois de lubrificar as bices com azeite presenteado pela equipe do parque, lá foram os Coxas rumo ao Chile. Para cada trecho de subida, uma parada no final para fotos e recuperação da respiração, até chegarmos ao posto de fronteira. A despedida da Bolívia é marcante. Deixamos para trás lugares inigualáveis e ficamos com as boas recordações do país mais barato e um dos mais belos da América do Sul.
Já no lado chileno, nos deparamos com uma cena singular: a recompensa por termos acordado cedo foi o privilégio de pedalar sobre a neve no caminho que corta os três picos nevados que nos recepcionaram no Chile. Pela primeira vez nós e as bices sentiram a sensação de espremer gelo no chão. Por um momento, esquecemos do ar rarefeito, das incontáveis subidas e da altitude (chegamos a pedalar a 4.622 metros acima do nível do mar) para nos dedicarmos ao prazer de ver a borracha marcar a camada branca que tomava conta das laterais da estrada de terra que nos levaria á rodovia que liga a Argentina ao Chile.
Bastou ganharmos o asfalto para começar a descida de 40 quilômetros até San Pedro, com cerca de 2.200 metros de diferença de altitude, desta vez, a favor dos Coxas. Haja freio. Neste ponto, registramos o primeiro problema nas bicicletas, verdadeiros blindados até então. Após pedalarmos nas estradas mais intransitáveis da Bolívia, tivemos um pneu furado justamente no asfalto muito bem cuidado do lado chileno, o que nos permitiu admirar, lá do alto, a imensidão do Atacama, deserto mais seco do mundo. Assim chegamos a San Pedro, deixando pra trás uma madrugada de quatro graus negativos para almoçarmos sob o calor de quase 40 graus da capital do deserto. Da neve ao calor intenso em poucas horas, eis que chegamos a mais um superlativo.
Sexta-feira, 25 de janeiro, 09h57 - E lá estão as três bices no teto de um Toyota 4×4 das antigas. É hora de trocar o maior salar pelo deserto mais seco do mundo. No volante, Miguel, 23, boliviano de Sucre. Ganha a vida pilotando o carro do irmão na região do grande salar. Ele não esconde o entusiasmo de viajar com os Coxas e logo coloca um CD de música boliviana (com influência árabe). Apesar da pouca idade, Miguel se diz motorista experiente e se orgulha de conhecer como poucos uma das regiões mais inóspitas do planeta, a fronteira da Bolívia com o Chile. A previsão é de 7 horas de viagem (claro que vai atrasar…). Os primeiros quilômetros são de estrada de terra em boas condições, mas não demora muito para voltarmos ao padrão boliviano de pista.
Cruzamos com pouquíssimos veículos no caminho que reserva lugares como o Sol de Mañana (complexo de gêiseres) e Termas de Chalviri (águas com temperatura de até 30 graus). Na medida que o tempo passa, os indícios de civilização vão ficando para trás.
No fim da tarde chegamos ao deserto de Dalí. Para imaginar a paisagem basta lembrar dos quadros do pintor espanhol. Mais adiante, a visão de uma seqüência de lagoas, cada qual com uma cor diferente (branca, verde, vermelha…), por conta de algas e minerais. A altitude máxima chega a 4.922 metros. Já passa das 18h quando finalmente avistamos o semi-encoberto vulcão Licancabur, nossa referência para a fronteira. Novamente, o frio e vento intensos e o prenúncio de outra tempestade atravessam o caminho dos Coxas. Não há como atravessar a fronteira de bicicleta nessas condições e decidimos passar a noite em território boliviano.
Para nosso desespero, só há um refúgio: o albergue da mulher da cara brava. É assim que nos referimos ao ser com o qual tivemos de negociar uma noite de sono. Depois de informados de que não havia água, luz e comida, só restou aos únicos hóspedes dormir cedo, com quatro cobertores cada, ouvindo o zunido do vento e o barulho das gotas no telhado. Do lado de fora, o relógio marcava 4 graus negativos.
23 de janeiro, 7h12 - Os Coxas acordam no hotel de sal Playa Blanca, no vilarejo de Colchani, depois de uma noite difícil em meio ao frio, chuva e buracos assustadores nas paredes, teto e piso da precária hospedaria. Após sermos informados de que não havia café da manhã (nem se pagássemos a mais), nos restou sumir dalí o mais rápido em direção a Uyuni, em busca de banho, comida e cama. Pedalamos mais 24 quilômetros alternando trechos de estrada de terra (padrão boliviano) e de via férrea. Lá se foram mais costelas de vaca, areal, lama propriamente dita e enxurradas. Na chegada a Uyuni, decidimos que o primeiro e único critério para a escolha do hotel seria um bom chuveiro quente. Nessas alturas, acumulávamos o cansaço de 27 horas de viagem de ônibus, seis de bicicleta e uma noite no sal. Para nossa surpresa, foi fácil encontrar um bom hotel, um excelente café da manhã, ducha quente e cama.
Aos poucos, bem devagar, os Coxas começaram a se despertar, já no fim da tarde. Refeitos do esforço, partimos para explorar a cidade de ruas alagadas e sujas onde resta uma pequena parte urbanizada nos arredores da avenida Potosi, que concentra o comércio e serviços voltados para turistas. Após lavarmos a roupa suja, comemos algumas bobagens e cama. Dormimos torcendo para fazer tempo bom no dia seguinte, garantia de boas fotos no maior salar do mundo.
Tempestade no sal
24 de janeiro, 7h49 - O dia amanhece nublado, mas sem chuva. Menos mal. Desde que saímos de La Paz a água não parou de cair. O café da manha reforçado foi o ingrediente que faltava para partimos em direção ao salar. O passeio é oferecido por diversas agências e é feito somente em veículos 4×4. Fomos os únicos a realizá-lo de bicicleta. Para nossa surpresa, o melhor caminho seria passar novamente em Colchani, que abriga o fatídico Playa Blanca. Tudo de novo: costelas de vaca, areal, lama propriamente dita e enxurradas. Ao chegarmos ao vilarejo, passamos em frente ao hotel que mantinha sua imponente aparência de abandonado. Aceleramos e, logo adiante, bastou virarmos à esquerda para ganharmos a estrada que leva ao salar. Não vamos aqui tentar descrever o que é pedalar na maior planície de sal do mundo. As fotos se encarregarão disso.
Mas cabe relatar, ó irmãos, o sufoco que passamos na volta do salar. No céu, duas formações nebulosas se encontram no momento em que saímos do terreno salgado. Nos vimos em meio a uma tempestade de vento, chuva forte e queda abrupta de temperatura. A única saída foi buscar abrigo em um hotel de sal em construção, próximo a entrada do salar. O caminho até lá foi penoso pois, com exceção do Coxa Leo, que seguiu pela estrada principal, os outros dois buscaram um atalho na diagonal fora da estrada, o que em qualquer outra situação seria mais rápido. Desastroso. As bicicletas afundaram na lama e foi necessário um esforço muito maior para alcançar o abrigo.
E, de novo, lá estavam os Coxas num hotel de sal. Roupas molhadas, bicicletas enlameadas e frio, muito frio. Sorte que por aqui o tempo muda o tempo todo. A chuva parou, o sol até deu as caras e os Coxas voltaram para a estrada em direção a Uyuni. No total, foram 64 quilômetros de lama, enxurrada, areal… Já na cidade, seis sanduíches na barraquinha da praça, antes mesmo de ir para o hotel. Dedicamos algumas horas para lavar bicicletas e roupas, banho e jantar. Hoje, pelo segundo dia consecutivo, dormiremos em nosso doce hotel de torneira vermelha.
Segunda-feira, 21 de janeiro. O dia começa em Copacabana (Bolívia) com a despedida da família de brasileiros de Curitiba que acompanhou os Coxas na viagem pelo Peru. O trio parte para a Isla del Sol, enquanto os Coxas se preparam para a viagem a La Paz. Antes do embarque, almoçamos no Portal del Sol, restaurante gerenciado por Cacho, 57, boliviano de La Paz que viveu por quase dois anos em uma tribo na Chapada dos Guimarães (MT). “Lá aprendi com pajés como cuidar de plantas e a ter qualidade de vida”, conta.
Cacho deixou o Brasil depois de ouvir de um pajé que teria que voltar à Bolívia. No máximo em três dias, numa espécie de missão espiritual. Sem dinheiro, o boliviano disse que não seria possível retornar em tão pouco tempo à terra natal. No mesmo dia veio a surpresa: um francês o convida para ser seu guia na Bolívia e, desde então, Cacho vive em Copacabana onde também aplica sessões de auto-hemoterapia.
Após comermos sopa de quinua real (mais um superlativo do altiplano, considerado o cereal mais nutritivo do mundo), arroz, salada e bife (conselho do Guilherme: comam proteína animal), nos despedimos com um “hasta luego” e ouvimos um lembrete de Cacho, todo orgulhoso: “Não se esqueçam de que a Copacabana de vocês, no Rio de Janeiro, tem esse nome graças à nossa Virgem de Copacabana”.
Olhamos no relógio: 13h32. Saímos da princesinha do Titicaca em um ônibus lotado de estrangeiros. Entre eles, Michilo e Pablo, argentinos de Salta, que viajaram na última fila com os Coxas. Aos poucos a dupla se solta e começa a narrar as peripécias em território peruano. Segundo eles, por uma questão ideológica, preferiram conhecer Machu Picchu por meio de uma rota, digamos, alternativa. Uma forma de protestar contra as altas taxas cobradas pela empresa que explora um dos maiores atrativos das Américas. Pablo, o mais falante, diz que apesar das três horas de subida no meio do mato, com mochilas pesadas e vegetação fechada, valeu a pena chegar à cidade sagrada. “Nos sentimos os descobridores de Machu Picchu”. A dupla passou a noite entre as ruínas. No dia seguinte, foram descobertos pelos seguranças e convidados a sair.
Nosso papo é interrompido pela funcionária do ônibus, que informa que todos deverão sair do veículo para atravessar de lancha o canal que separa as cidades de San Pedro e San Pablo, em mais um contato com o imenso Titicaca, que no ponto mais profundo atinge 249 metros. De volta ao ônibus, seguimos com o papo na última fila. Depois de falarmos de futebol (tema inevitável), a dupla revela sua grande paixão, o rugby. Na despedida na rodoviária de La Paz, os Coxas recebem uma camisa do time do Jockey Club de Salta.
Nossa permanência no terminal é curta, mas há tempo para comermos pães frios antes de iniciar, às 19h, a viagem até Uyuni, cidade-base para quem quer explorar o maior salar do mundo. A previsão é de 12 horas de estrada. Fora a tripulação, apenas outros dois bolivianos no ônibus, um policial militar e um caminhoneiro, que se transformaria em guia (é incrível, mas o motorista não conhecia o caminho). Entre os passageiros, espanhóis, norte-americanos, ingleses, islandeses e, é claro, brasileiros e argentinos.
Aula de Física
Depois de parada técnica de duas horas durante a madrugada, por conta de informações desencontradas sobre as condições da estrada entre Oruro e Uyuni (304 quilômetros), seguimos em direção ao salar. No caminho, ajudamos a desatolar outro ônibus que ia na mesma direção, lotado de coreanos. Poucos metros depois, é a vez do nosso atolar. Foi aí que o desprendimento dos brasileiros e argentinos se mostrou eficiente. Liderados pelo Coxa Cabral (que já havia coordenado a exitosa operação anterior, com técnicas extraídas do livro de Física do segundo grau), Brasil e Argentina demoraram uma hora e meia para desatolar o veículo, sob os olhares atentos dos demais países. Na verdade, o ônibus não atolou. Uma roda travada é o que o impedia de seguir pela péssima estrada até o salar, problema detectado horas depois pelo motorista. Já passava das 10 horas e ainda estávamos a quatro de Uyuni, pra onde partimos sem freio traseiro.
Na altura do rio Mulato, mais uma parada (para o desespero de todos passageiros) por conta da enxurrada formada pelas águas da chuva e do degelo. Já havíamos passado por várias, mas desta vez a força das águas assustou o motorista que resolveu aguardar (deu até uma cochilada no barranco). Após esperarmos mais de uma hora (e nada das águas baixarem), os Coxas decidiram fazer a travessia com as mochilas e bicicletas nas costas, sob o olhar de espanto do resto do mundo. Preparamos as bices e, pela primeira vez, encaramos o pedal levando toda nossa tralha, cerca de 20 quilos de carga por bicicleta.
Foram 42 quilômetros de lama, costela de vaca (ondulações na pista), vento contra, dois cerros, mais enxurradas (imaginem a temperatura da água) e, é claro, de paisagens alucinantes a 3.400 de altitude, até chegarmos ao povoado de Colchane, a 26 quilômetros de Uyuni. Ali registramos o mais belo pôr-do-sol.
A noite chegou e com ela o frio mais intenso e chuva. Não tinha jeito: teríamos que dormir no único lugar disponível, o hotel de sal Playa Blanca que, apesar da estrutura inusual, ficou marcado como a pior hospedagem até agora. Foi difícil convencer a funcionária a preparar uma sopa para os Coxas, que estavam sem dormir a mais de um dia, com muita fome e cansados do pedal de última hora. Insistimos e conseguimos comer parte da sopa servida para o grupo de cerca de 20 coreanos que tomou conta do hotel. Deles recebemos aplausos, após sermos reconhecidos como os brasileiros que ajudaram a desatolar o ônibus em que viajavam. Da funcionária, uma sopa de legumes e a informação de que não havia chuveiro quente. Pior: não tinha água no hotel. Dormimos cheios de lama, sob chuva, goteiras, em um quarto cheio de buracos salgados.
Após o dia cheio em Machu Picchu, os Coxas voltaram a Ollaytaitambo para pegar as bagagens e as bicicletas. Dali seguimos em um carro de passeio com três bicicletas e quatro passageiros. Foi uma hora e meia de viagem até Cuzco. Aproveitamos para saber mais sobre como é a relação dos Incas com as culturas Aimara e Quechua, numa aula cheia de detalhes ministrada pelo motorista Quechua, Francisco.
De Cusco partimos para Copacabana, cidade Boliviana, erguida às margens do lago Titicaca, um dos giros previstos na Expedição. Após 15 horas tentando se ajeitar num ônibus, digamos, inadequado para o trajeto, com direito a percorrer os últimos 70 quilômetros apenas com a terceira marcha, os Coxas desembarcaram na princesinha do Titicaca, por volta das 12h do sábado (19). Após um almoço que incluiu sopa de vegetais, truta, arroz, suco e salada de frutas, fomos finalmente fazer o que não foi possível no ônibus: dormir. Eufóricos, acordamos às 16h loucos para pedalar nas margens do Titicaca. Fomos em busca dos dois cerros mais altos da região de Copacabana. Foi um pedal curto, mas de muita subida. Chegamos a 3.945 metros de altitude, o recorde até agora. A estrada até esse ponto da península corta “pueblos” adormecidos no tempo.
A cidade de Copacabana é um atrativo para mochileiros e peregrinos de todo o mundo que buscam também a Isla del Sol, um paraíso a uma hora e meia de barco. No domingo (20), após o pedal nas alturas do dia anterior, os Coxas se permitiram conhecer a Isla, local escolhido para o mergulho dos Coxas nas águas geladas do Titicaca. A sensação de pequeneza diante de tantos superlativos é a prova de que a América do Sul é muito mais interessante do que muitos brasileiros pensam. Encontramos muitos pelo caminho, mas os argentinos ainda são maioria e ninguém mais do que eles saem de casa para explorar a América. Por conta do frio e da riqueza do artesanato local, os Coxas se entregaram aos trajes típicos de quem enfrenta baixas temperaturas durante todo o ano.
Por aqui as amizades são feitas rapidamente, do mesmo jeito que se perdem, pois o tempo é curto e sempre há um destino instigante a ser explorado. Em nosso caso, Uyuni é a próxima parada. Hoje é segunda-feira (21) e estamos prontos para pegar o ônibus de volta a La Paz, de onde partiremos rumo ao maior salar do mundo, no sul da Bolívia, país onde tudo é muito barato para brasileiros, mas cuja visita não tem preço.